Arquivo para maio, 2008

Posted in Uncategorized on maio 31, 2008 by flavyamutran

‘O dia em que fui mais feliz’, Vigia/PA, Série Palimpsestos, 1996 ©Flavya Mutran ‘O dia em que fui mais feliz’, Vigia/PA, Série Palimpsestos, 1996 ©Flavya Mutran

‘Tempo, tempo...’ – Fotografia em P&B com viragem parcial em selenol. Juazeiro do Norte/CE, Série Palimpsestos, 1996 ©Flavya Mutran  ‘Tempo, tempo…’, Fotografia em P&B com viragem parcial em selenol. Juazeiro do Norte/CE, Série Palimpsestos, 1996©Flavya Mutran

‘Domingo’ – Fotografia em P&B com viragem parcial em selenol. Juazeiro do Norte/CE, Série Palimpsestos, 1996 ©Flavya Mutran ‘Domingo’ – Fotografia em P&B com viragem parcial em selenol. Juazeiro do Norte/CE, Série Palimpsestos, 1996 ©Flavya Mutran

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Palimpsestos

Posted in Uncategorized on maio 31, 2008 by flavyamutran

‘Têm umas pessoas que já o viram’ – Fotografia em P&B com viragem parcial em selenol. Juazeiro do Norte/CE, Série Palimpsestos, 1996 ©Flavya Mutran ‘Tem umas pessoas que já o viram’ – Fotografia em P&B com viragem parcial em selenol. Juazeiro do Norte/CE, Série Palimpsestos, 1996.

Em seu artigo intitulado Palimpsestos, Philippe Dubois* afirma que a fotografia, na sua essência básica, é com certeza uma das formas modernas que melhor encarna um certo prolongamento das artes da memória. ‘É um dispositivo mnemotécnico onde se inscrevem e se apagam as nossas percepções do mundo, nossos pensamentos e sentimentos. Quase pode ser comparada com uma materialização da alma humana, e como tal, é feita de imagens fragmentadas, recortes, seleções. (…) Nossa memória é feita de lembranças visuais, e porque não dizer, de fotografias.’*

Historicamente, palimpsestos eram manuscritos em pergaminho ‘raspados’ por copistas e polidos com marfim, cuja escrita se fazia várias vezes sobre a mesma superfície, e depois se faziam desaparecer para novamente se escrever sobre a mesma placa. Este tipo de escrita servia à Arte da memória e era usada na antiguidade grega, até o período medieval, como instrumento em que o orador escrevia (inscrevia) com facilidade, na virtualidade de suas memórias, tudo que precisava usar como lembrete para a construção do seu discurso.

Inspirada pelas reflexões levantadas pelo texto de Dubois, adotei Palimpsestos como título da minha primeira exposição individual, que entre 1996 a 1999, foi exposta em várias capitais brasileiras.

Selecionar as lembranças de imagens de pessoas e lugares ao longo da minha trajetória com a fotografia foi uma espécie de redescoberta interior. Uma revisão histórica particular. ‘Trazer à luz o que um dia, em algum lugar esteve ali, e que hoje são traços mnésicos, duráveis e infinitos, latentes e à espera de serem (re)descobertos.’  Este exercício foi um desafio pessoal. O caminho rumo ao descobrimento dessas imagens encobertas foi, e ainda é sinuoso, feito de traços parciais, dúvidas, ausências e lacunas. O que a luz imprimiu em nuances de claros e escuros de prata no suporte transparente do negativo durante meu trabalho documental, nem sempre correspondeu às imagens inscritas na retina, e o que parecia gravado, intacto, nunca mais se associou àquelas formas, nunca mais voltou totalmente à luz, nem mesmo pela fotografia. O trabalho de resgatar um pouco dessas lembranças polissêmicas começando pelas pontas dos meus filmes foi quase catarse. Começos e finais dos filmes e os fotogramas que não se deixaram revelar por inteiro se transformaram em cenas inacabadas, impressas por justaposições de vultos, verdadeira sucessão de interferências casuais. Restos de um discurso redesenhado por novos signos e índices.

No espírito do artigo citado, a revelação dessas lembranças recalcadas se parece um pouco com um trabalho arqueológico, onde se precisa escavar, arranhar e procurar o que está além da superfície do negativo, para só então poder chegar ao ponto de cisão entre o real e o imaginário. As palavras arranhadas sobre os negativos também são imagens aplicadas como novas inscrições de palimpsestos. Reutilizar o mesmo plano com outras e novas informações. Através da grafia da palavra se dão algumas aproximações de sensações percebidas apenas durante o ato fotográfico, ou depois, durante o processamento dos filmes, coisa que nem mesmo a materialização da foto me trouxe de todo. Como diria Dubois, ‘a fotografia então passou a ser a encarnação exata da idéia do palimpsesto que não cessou. Da escrita que se sobrepõe ad infinitum.’

*Texto baseado no artigo Palimpsestos, do livro O Ato Fotográfico de Philippe Dubois, Papirus, 1994.

Acima, imagem de divulgação em foto de Walda Marques. Belém/PA – 1996

Posted in Uncategorized on maio 31, 2008 by flavyamutran

‘Separa e deixa bem longe’ – Fotografia em P&B com viragem parcial em selenol. Juazeiro do Norte/CE, Série Palimpsestos, 1996 ©Flavya Mutran  ‘ Separa e deixa longe dos olhos…’ – Fotografia em P&B com viragem parcial em selenol. Juazeiro do Norte/CE, Série Palimpsestos, 1996.

“O tempo é o grande encarregado das significativas mudanças nos trabalhos dos homens, assim como na própria vida deste e especialmente em suas idéias. O curso desse caminhar leva-nos sempre a questionar o que foi vivido, produzido, e inevitavelmente há um julgamento ao  final. Quando Flavya Mutran, após caminhar pela fotografia experimentando todos os processos possíveis a ela e dela conhecidos, inaugura mostra em que os palimpsestos são inspiração e norteamento, compreende-se o quanto ela está ligada ao processo de sumiço e sublimação do discurso, morte e ressurreição de imagens.

Trabalhando com fotografias do passado e do presente, Flavya apaga e sobrepõem as lembranças. Os slides fungados, sobreviventes de uma enchente, e as pontas de filmes que realizou a maioria no Juazeiro no Norte (Ceará), servem para a construção de seu discurso, de sua fala, que busca, agora, o mesmo resgate da memória. A escrita visual é forte nesses poucos trabalhos – restos de imagens não corporificadas por inteiro, que acabariam no cesto do lixo, mas que a mágica do pensamento, atrás do qual todo andamos, acabou levando para a constituição de uma obra. É evidente um processo de perda, assim como uma melancolia cortante, como se o passado, riscado, ponta de filme perdido, a levasse à parede deixando-as sem saídas.

O mais belo, pura redundância, é a beleza que os trabalhos traduzem. Além de um discurso formal, intelectual e arquitetado no risco de tornar os trabalhos exageradamente pensados, existe o espiritual da arte transformando algumas imagens em pura abstração, outras em imagens de fantasmagoria surpreendentes, mas todas com um timbre de solidão interior. A solidão do amor descrito por Rilke, que vê além do tempo um futuro onde todos temos a obrigação de estarmos melhor. Esta exposição tem gosto de auto-julgamento. Flavya, cruel consigo mesma, consegue ver e discutir a própria produção. O mérito da questão é ela mesma. A sentença é a libertação, a liberdade em forma e beleza.”

Cláudio de La Rocque Leal – Abril de 1996

Texto de apresentação da Exposição Palimpsestos, escrito pelo jornalista e amigo Cláudio (in memorian)

 

Cenas de Pretérito

Posted in Uncategorized on maio 30, 2008 by flavyamutran

Trecho do Filme em super8 ‘Elegia por uma Cidade’ de João Jesus Paes Loureiro, realizado em Belém em meados da década de 1970.  Filme em super8 ‘Elegia por uma Cidade’ de João Jesus Paes Loureiro, realizado em Belém em meados da década de 1970.

Cena do video Pretérito imperfeito em que Samuel (Mariao Klautau filho) passeia pela cidade. Trecho de Pretérito Imperfeito, em cena, mariano Klautau Filho como Samuel. 

Cena do vídeo Pretérito imperfeito em que Samuel representado pelo fotógrafo Mariano Klautau filho, passeia pela cidade.

O homem é o fotógrafo Gratuliano Bibas, já falecido, em trecho extraäo de um VHS caseiro feito por um parente ao se despedir de Belém de navio, em meados dos anos 1980 - acervo de Jaime Bibas. O homem na cena é o fotógrafo Gratuliano Bibas, já falecido, em trecho extraído de um VHS caseiro feito por um parente ao se despedir de Belém de navio, em meados dos anos 1980. – acervo de Jaime Bibas.

  Frame retirado do väeo Pretérito Imperfeito que funde as cenas do passeio de Samuel com trechos do väeo ‘Bitar 8mm’, de Alberto Bitar. Frame retirado do vídeo Pretérito Imperfeito que funde as cenas do passeio de Samuel com trechos do vídeo ‘Bitar 8mm’, de Alberto Bitar.

  

PRETÉRITO IMPERFEITO

Um relato de saudade inspirado em fotos e filmes de produção amadora realizados em Belém por várias gerações.

PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Mariano Klautau Filho como Samuel

Ademir Brandão como taxista

ARGUMENTO, ROTEIRO E DIREÇÃO GERAL

Flavya Mutran

DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA

Alberto Bitar

Paulo Almeida

SOM

Léo Bitar

FILMES EM VHS E SUPER8

“Elegia por uma cidade” – Super8 de João Jesus Paes Loureiro

“Bitar 8mm” – vídeo de Alberto Bitar

“Despedida no Cais” – VHS caseiro do acervo de Jaime Bibas

PESQUISA E DIGITALIZAÇÃO DE IMAGENS

Flavya Mutran

ANIMAÇÃO, TRATAMENTO DE IMAGENS E AUTORAÇÃO DE DVD

Alberto Bitar

EDIÇÃO

Alberto Bitar

Flavya Mutran

Paulo Almeida

STILL

Walda Marques

PROJETO GRÁFICO

Jaime Bibas

Pretérito Imperfeito

Posted in Uncategorized on maio 29, 2008 by flavyamutran

Capa do DVD \'Pretérito Imperfeito\', de Flavya Mutran. projeto gráfico de Jaime Bibas.

“Pretérito Imperfeito” é um vídeo ficcional que foi realizado em 2004, com recursos da Bolsa de Experimentação e Pesquisa em Artes do IAP, Instituto de Artes do Pará. O vídeo trata de uma cidade imaginária baseada em fotos e fatos reais. Imagens de paisagens, cenas e retratos de personagens reproduzem a memória afetiva de Belém em várias gerações, representadas em fragmentos de histórias inacabadas que fundem conceitos como recordar e esquecer. Duração aproximada de 08 minutos.

Carta à Samuel

Posted in Uncategorized with tags on maio 29, 2008 by flavyamutran

Cena do video Preterito Imperfeito, de Flavya Mutra, 2004

Samuel

Quanto tempo…

Tempo em que já deveríamos ter criado mais oportunidades entre nós. Mais encontros, falas, visitas e provocações.

Parece que o tempo entre agente sempre teve essa discreta vocação para a lembrança, não é mesmo? Talvez daí, a quase resignação em aceitar tantas saudades. As tuas, as minhas, as nossas. Saudades dos outros, de ontem e hoje. Saudades também de uns certos amanhãs desconhecidos que lembram trechos do inesquecível “Jardim de Caminhos que se Bifurcam” do Borges. Amanhãs de futuros incertos e improváveis que envolvem agente numa sinistra e ao mesmo tempo doce iminência. Tempo que esconde as imperfeições do dia-a-dia, e revela as recordações e esquecimentos do futuro.

Desculpe se pareço divagar, mas tenho motivos para isso. Tu nem imaginas o que aconteceu: Clara veio até aqui e me entregou a pequena mala com aquelas fotografias que dávamos como perdida depois que saímos de Belém!

Achei estranho o fato de Clara nunca ter dito nada que guardava nossas memórias. Sem maiores explicações, ela veio até aqui e deixou a malinha que tua mãe te deu no natal de 78. Notei logo que nunca fora aberta, pois guardei a chave comigo todo este tempo. Incrível como ela pôde ter sido guardiã de nossas imagens por tanto tempo sem ao menos ter tido a curiosidade de olhar para o que tinha dentro. Penso que só um grande respeito, medo talvez, a impediu de bisbilhotar. Fico imaginando como alguém pode manter sob controle a curiosidade sobre algo tão íntimo de outra pessoa. Não seria natural que ela a abrisse ao menos para saber do que se tratava? Como ela a conseguiu? Fiquei alguns dias sem condições de abri-la, mas enfim consegui fôlego e coragem para rever nosso pequeno acervo do passado.

No dia da visita de Clara fiquei tão feliz com a devolução do que já tomava como perdido, desdobrei-me em agradecimentos e nem me dei conta que a atitude nobre da Clara foi no mínimo irresponsável. Sua consideração em manter a mala fechada por tantos anos foi desastrosa, assim, nossas cartas e filmes foram transformados num amontoado de manchas e fungos. As cartas que trocamos naqueles tempos difíceis que tu estavas em Lisboa se perderam totalmente.

O motivo principal de eu estar te escrevendo, é para te pedir que venha até aqui para ver essas imagens comigo. Desde que as reencontrei não pude mais ter paz.

Meu coração se encheu de lembranças, saudades, mas também de pavor. Acho que não estou suportando bem o fato de ter perdido essas fotografias pela segunda vez. Antes, quando as dava como extraviadas, talvez fosse mais fácil. Acalentava uma secreta ilusão de que alguém um dia as encontraria e seria feliz com elas. Quem sabe nossas fotos até pudessem confortar a vida solitária de um guardião imaginário. Durante anos conjuguei esta perda no futuro do pretérito. Agora é diferente. As perdemos mais uma vez, só que de forma irreversível, pois o tempo se encarregou de apagar a única prova dos nossos dias mais felizes. Desconfio que devo estar enlouquecendo depois de tudo isso.

Não paro de olhar para elas. Passei até a enxergar coisas nestas fotografias que não existiam no momento em que as fizemos. Já nem reconheço quem fez algumas delas, se fui eu ou se foste tu. É como se por debaixo das cenas e por detrás dos rostos das pessoas sempre houvesse outras imagens, latentes, mas que só agora, depois do desgaste da emulsão e do desbotado das cores, estão se revelando. É fantasmagórico, mas também é fascinante. Como se uma mensagem estivesse escondida em cada foto… Chego a ouvir um murmúrio longínquo de vozes que vão, vem, se apagam, se sobrepõem a estas imagens. Não se sabe quem fala. Sei que aquilo fala, é só! Será loucura?

Dê uma boa olhada nas imagens que envio junto com esta carta e tu vais entender sobre o que me refiro. Boa parte das outras já desapareceu, e temo que o restante não dure mais que alguns poucos momentos. Momentos que preciso e quero compartilhar contigo. Talvez tu sejas a única pessoa que poderá ouvir e entender a inflexão dessas vozes que voltam do nosso passado. Juntos, quem sabe, poderemos resgatar estas lembranças. Quase memória…

 

Eu

 

OBS. O texto acima foi escrito como argumento inicial para o vídeo ‘Pretérito Imperfeito’, baseado em fotos da série quase memória e fragmentos de imagens coletadas durante uma pesquisa sobre a imagem da cidade em 2004.

Posted in Uncategorized with tags on maio 28, 2008 by flavyamutran

 

Menina, Série Quase Memória, 2002, Belém, PA  Menina, Série Quase Memória, 2002, Belém, PA ©Flavya Mutran

Imagens com justaposições de fotos em chromo 35mm que misturam épocas diferentes da minha vida são da série Quase Memória  que marcou um importante período da minha produção autoral a partir dos anos 2000. Trabalhando profissionalmente com laboratório fotográfico e fotojornalismo desde a década de 1990, sempre me lancei às experimentações com suportes não convencionais da fotografia, produzindo imagens que misturassem linguagens atemporais e exercitando um olhar descomprometido com a datação histórica inerente ao documento fotográfico. Certamente, hoje, anos depois, percebo que uma das buscas iniciais nesta pesquisa de imagens decorre de uma reflexão sobre a fragilidade da relação entre a matéria e a memória, seja física (corpo, papel, negativo e cópia) seja virtual (lembranças, sensações, esquecimentos). Se um dos atributos mais marcantes da fotografia é a conexão entre o passado, presente e futuro (porque não?), interferir nesse processo, – acelerando o desgaste do suporte ou resgatando fragmentos de imagens já comprometidas pela corrosão do tempo -, me trouxe a possibilidade de articular pequenas ficções baseadas em fatos, cenas e personagens reais. Quem são estas pessoas sem rostos, de onde são estes lugares sem placas, de onde vem essas cores sem brilho? A própria relação entre o grão do diapositivo transformado em pixel através da digitalização dessa junção de chromos liberta a matéria do suporte inicial e a lança para outro campo de articulações. Do ponto ao pixel, do fundo da gaveta para o mundo.