Carta à Samuel

Cena do video Preterito Imperfeito, de Flavya Mutra, 2004

Samuel

Quanto tempo…

Tempo em que já deveríamos ter criado mais oportunidades entre nós. Mais encontros, falas, visitas e provocações.

Parece que o tempo entre agente sempre teve essa discreta vocação para a lembrança, não é mesmo? Talvez daí, a quase resignação em aceitar tantas saudades. As tuas, as minhas, as nossas. Saudades dos outros, de ontem e hoje. Saudades também de uns certos amanhãs desconhecidos que lembram trechos do inesquecível “Jardim de Caminhos que se Bifurcam” do Borges. Amanhãs de futuros incertos e improváveis que envolvem agente numa sinistra e ao mesmo tempo doce iminência. Tempo que esconde as imperfeições do dia-a-dia, e revela as recordações e esquecimentos do futuro.

Desculpe se pareço divagar, mas tenho motivos para isso. Tu nem imaginas o que aconteceu: Clara veio até aqui e me entregou a pequena mala com aquelas fotografias que dávamos como perdida depois que saímos de Belém!

Achei estranho o fato de Clara nunca ter dito nada que guardava nossas memórias. Sem maiores explicações, ela veio até aqui e deixou a malinha que tua mãe te deu no natal de 78. Notei logo que nunca fora aberta, pois guardei a chave comigo todo este tempo. Incrível como ela pôde ter sido guardiã de nossas imagens por tanto tempo sem ao menos ter tido a curiosidade de olhar para o que tinha dentro. Penso que só um grande respeito, medo talvez, a impediu de bisbilhotar. Fico imaginando como alguém pode manter sob controle a curiosidade sobre algo tão íntimo de outra pessoa. Não seria natural que ela a abrisse ao menos para saber do que se tratava? Como ela a conseguiu? Fiquei alguns dias sem condições de abri-la, mas enfim consegui fôlego e coragem para rever nosso pequeno acervo do passado.

No dia da visita de Clara fiquei tão feliz com a devolução do que já tomava como perdido, desdobrei-me em agradecimentos e nem me dei conta que a atitude nobre da Clara foi no mínimo irresponsável. Sua consideração em manter a mala fechada por tantos anos foi desastrosa, assim, nossas cartas e filmes foram transformados num amontoado de manchas e fungos. As cartas que trocamos naqueles tempos difíceis que tu estavas em Lisboa se perderam totalmente.

O motivo principal de eu estar te escrevendo, é para te pedir que venha até aqui para ver essas imagens comigo. Desde que as reencontrei não pude mais ter paz.

Meu coração se encheu de lembranças, saudades, mas também de pavor. Acho que não estou suportando bem o fato de ter perdido essas fotografias pela segunda vez. Antes, quando as dava como extraviadas, talvez fosse mais fácil. Acalentava uma secreta ilusão de que alguém um dia as encontraria e seria feliz com elas. Quem sabe nossas fotos até pudessem confortar a vida solitária de um guardião imaginário. Durante anos conjuguei esta perda no futuro do pretérito. Agora é diferente. As perdemos mais uma vez, só que de forma irreversível, pois o tempo se encarregou de apagar a única prova dos nossos dias mais felizes. Desconfio que devo estar enlouquecendo depois de tudo isso.

Não paro de olhar para elas. Passei até a enxergar coisas nestas fotografias que não existiam no momento em que as fizemos. Já nem reconheço quem fez algumas delas, se fui eu ou se foste tu. É como se por debaixo das cenas e por detrás dos rostos das pessoas sempre houvesse outras imagens, latentes, mas que só agora, depois do desgaste da emulsão e do desbotado das cores, estão se revelando. É fantasmagórico, mas também é fascinante. Como se uma mensagem estivesse escondida em cada foto… Chego a ouvir um murmúrio longínquo de vozes que vão, vem, se apagam, se sobrepõem a estas imagens. Não se sabe quem fala. Sei que aquilo fala, é só! Será loucura?

Dê uma boa olhada nas imagens que envio junto com esta carta e tu vais entender sobre o que me refiro. Boa parte das outras já desapareceu, e temo que o restante não dure mais que alguns poucos momentos. Momentos que preciso e quero compartilhar contigo. Talvez tu sejas a única pessoa que poderá ouvir e entender a inflexão dessas vozes que voltam do nosso passado. Juntos, quem sabe, poderemos resgatar estas lembranças. Quase memória…

 

Eu

 

OBS. O texto acima foi escrito como argumento inicial para o vídeo ‘Pretérito Imperfeito’, baseado em fotos da série quase memória e fragmentos de imagens coletadas durante uma pesquisa sobre a imagem da cidade em 2004.

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