Palimpsestos

‘Têm umas pessoas que já o viram’ – Fotografia em P&B com viragem parcial em selenol. Juazeiro do Norte/CE, Série Palimpsestos, 1996 ©Flavya Mutran ‘Tem umas pessoas que já o viram’ – Fotografia em P&B com viragem parcial em selenol. Juazeiro do Norte/CE, Série Palimpsestos, 1996.

Em seu artigo intitulado Palimpsestos, Philippe Dubois* afirma que a fotografia, na sua essência básica, é com certeza uma das formas modernas que melhor encarna um certo prolongamento das artes da memória. ‘É um dispositivo mnemotécnico onde se inscrevem e se apagam as nossas percepções do mundo, nossos pensamentos e sentimentos. Quase pode ser comparada com uma materialização da alma humana, e como tal, é feita de imagens fragmentadas, recortes, seleções. (…) Nossa memória é feita de lembranças visuais, e porque não dizer, de fotografias.’*

Historicamente, palimpsestos eram manuscritos em pergaminho ‘raspados’ por copistas e polidos com marfim, cuja escrita se fazia várias vezes sobre a mesma superfície, e depois se faziam desaparecer para novamente se escrever sobre a mesma placa. Este tipo de escrita servia à Arte da memória e era usada na antiguidade grega, até o período medieval, como instrumento em que o orador escrevia (inscrevia) com facilidade, na virtualidade de suas memórias, tudo que precisava usar como lembrete para a construção do seu discurso.

Inspirada pelas reflexões levantadas pelo texto de Dubois, adotei Palimpsestos como título da minha primeira exposição individual, que entre 1996 a 1999, foi exposta em várias capitais brasileiras.

Selecionar as lembranças de imagens de pessoas e lugares ao longo da minha trajetória com a fotografia foi uma espécie de redescoberta interior. Uma revisão histórica particular. ‘Trazer à luz o que um dia, em algum lugar esteve ali, e que hoje são traços mnésicos, duráveis e infinitos, latentes e à espera de serem (re)descobertos.’  Este exercício foi um desafio pessoal. O caminho rumo ao descobrimento dessas imagens encobertas foi, e ainda é sinuoso, feito de traços parciais, dúvidas, ausências e lacunas. O que a luz imprimiu em nuances de claros e escuros de prata no suporte transparente do negativo durante meu trabalho documental, nem sempre correspondeu às imagens inscritas na retina, e o que parecia gravado, intacto, nunca mais se associou àquelas formas, nunca mais voltou totalmente à luz, nem mesmo pela fotografia. O trabalho de resgatar um pouco dessas lembranças polissêmicas começando pelas pontas dos meus filmes foi quase catarse. Começos e finais dos filmes e os fotogramas que não se deixaram revelar por inteiro se transformaram em cenas inacabadas, impressas por justaposições de vultos, verdadeira sucessão de interferências casuais. Restos de um discurso redesenhado por novos signos e índices.

No espírito do artigo citado, a revelação dessas lembranças recalcadas se parece um pouco com um trabalho arqueológico, onde se precisa escavar, arranhar e procurar o que está além da superfície do negativo, para só então poder chegar ao ponto de cisão entre o real e o imaginário. As palavras arranhadas sobre os negativos também são imagens aplicadas como novas inscrições de palimpsestos. Reutilizar o mesmo plano com outras e novas informações. Através da grafia da palavra se dão algumas aproximações de sensações percebidas apenas durante o ato fotográfico, ou depois, durante o processamento dos filmes, coisa que nem mesmo a materialização da foto me trouxe de todo. Como diria Dubois, ‘a fotografia então passou a ser a encarnação exata da idéia do palimpsesto que não cessou. Da escrita que se sobrepõe ad infinitum.’

*Texto baseado no artigo Palimpsestos, do livro O Ato Fotográfico de Philippe Dubois, Papirus, 1994.

Acima, imagem de divulgação em foto de Walda Marques. Belém/PA – 1996

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