Arquivo para janeiro, 2009

Primeiros ensaios

Posted in Uncategorized on janeiro 11, 2009 by flavyamutran

Nos dias que passei encaixotando meus livros, minhas câmeras, fotos e negativos para a mudança de Belém para Porto Alegre, pude rever muito material produzido no fim da década de 1980, começo de 1990, quando então eu começava a arriscar os primeiros ensaios fotográficos. A paixão de ter uma câmera e um filme nas mãos – as vezes bem isso mesmo, só um filme e olhe lá – , mobilizava amigos, minha casa, casas alheias, luzes e muita alegria nessa muvuca toda. Meu lado saudosista de canceria não resistiu em escanear algumas imagens e publicar aqui três ensaios que gosto muito desta época. Desculpem-me se por um certo tempo rolar um ar de ‘naftalina’ neste blog, mas é importante para mim ter algumas imagens do meu processo inicial às vistas dos meus olhos neste momento. Quem sabe o que olhei há alguns anos me traga um pouco do frescor  perdido no dia-a-dia do fotojornalismo, que tanto desgastou meu olhar nos últimos anos. Sem queixas, na real só pretendo celebrar algumas imagens e ter motivos para chamar umas amigas para rever estas fotos e dar umas risadas, curtir umas boas lembranças…

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Maria, ensaio em P&B, 1989. Marabá/PA/Brasil ©Flavya Mutran

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Silfide (Claúdia), ensaio em P&B, 1989. Belém/PA/Brasil ©Flavya Mutran

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Lâmia (Beloca), primeiros ensaios fotográficos em P&B, 1989. Belém/PA/Brasil ©Flavya Mutran

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S/Título (Lalá), Ensaio fotográfico em P&B, 1989. Belém/PA/Brasil ©Flavya Mutran

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Cartografias impossiveis

Posted in Uncategorized on janeiro 9, 2009 by flavyamutran

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Mapapalma, impressão direta em papel P&B, 18x24cm. Série ID, fotograma em P&B – 1990 Belém/PA/Brasil – ©Flavya Mutran

‘…é lindo, ainda que terrífico.’

Posted in Uncategorized on janeiro 6, 2009 by flavyamutran

Em arte, qualquer representação na realidade de algum objeto, sentimento, ou sensação, especialmente na arte fotográfica, onde o representar é exprimido em instante fugidio, quando a imagem configura-se de forma definitiva, ou pelo menos quase definitiva, uma vez que existe o trabalho no laboratório. A fotografia de Flavya Mutran, por exemplo, vence a barreira do ‘definitivo’, cria uma espécie de novo establishment quando transforma o que foi visto e flagrado em alguma coisa diversa do que realmente foi, é ou será. Em suma, a alegoria existe como retrato de algo interior/exterior, camuflado por uma idéia, romântica nos primeiros trabalhos da série Caixa de Pandora (1992/93), onde o desconhecimento é trocado, de maneira fascinante, pela descoberta do saber. 

Entendamos, então, que quando a fotografia camufla a imagem com uma espécie de veladura em cobre (que não cobre nem descobre inteiramente a imagem), negando-a na essência, está questionando o destino, a função de cada objeto fotografado. Assim se deu com o gato copiado da ponta de um filme – e a ponta de filme, numa espécie de resgate, vai incidir com mais freqüência e determinação na série dos Palimpsestos -, bem como a mulher que dança com um único olho a brilhar sobre a testa envolta em nuvens, e o menino adormecido, que dubla a morte, inclusive, como a própria fotografia observa, fechando um ciclo.

 Ainda, entende-se que a criação a série de fotografias para a primeira exposição CAIXA DE PANDORA, realizada em junho de 1993, importa em uma releitura do processo de iniciação na fotografia, que compreendeu sempre investidas em busca de uma nova linguagem, um novo establishment no processo fotográfico. Neste sentido, a degeneração que importou da primeira para a segunda Pandora (1995) quando a interferência se dá de outra maneira, com um líquido depositado sobre a imagem interferindo na visão desta e emprestando-lhe novo significado. O líquido encontra-se trancafiado no mesmo espaço, na mesma clausura da imagem.; a moldura, no caso, passa a ser a prisão , feito espaço. É com esta série, e com o movimento contínuo do líquido vermelho sobre a forma exposta de corpos femininos, que se percebe alguma investida da fotografia de Flavya Mutran no abstracionismo, traço e personalidade da grande maioria, senão a totalidade, dos artistas brasileiros.

Mas o fato de estar a expor este material de forma lúdica, onde os espectadores podem manipulá-lo, como se tivessem à mão um jogo de ilusionista – brincar de fazer correr o líquido vermelho (alegoria ou representação do sangue?) -, é refazer uma vez mais o sentido de sua própria produção. Pode-se entender, especificamente a segunda Pandora de Flavya Mutran, como um laboratório para o trabalho maior, encontrado na série dos Palimpsestos.  

 

mamae‘Mamãe’, slide da instalação ‘Imagines’ exposta na individual Palimpsestos, de Flavya Mutran em 1996. sobra_de_palavras1‘sobra de palavras…’ fotografia em P&B da série Palimpsestos de 1996. ©Flavya Mutran

Por isso, na imagem da boneca esquecida em uma vala, no menino adormecido que dubla um morto, ou no gato que beira o limite do real, ou seja, da película que congelou e definitivamente o aprisionou, sempre existe a visão maior, a amplitude. O que vemos não é somente aquilo que se encontra ali exposto, mas sim muito mais. O que se vê nesse processo de registro é a visão delimitada pelas máscaras, reverberando o objeto, amplificando a fala da artista, fazendo da fotografia o phatos do sentimento humano. É lindo, ainda que terrífico.

Então, volvendo-se para o início, quando as imagens foram encobertas pelas lâminas de cobre, na realidade, máscaras que impediam a visão do todo, ou davam a dimensão permitida, vê-se o quão esse processo foi, paulatinamente, delineando a sua pue, uma vez libertada, encontrou, em júbilo, o reconhecimento. Por isso esse desembocar de imagens contidas, com significado diversificado em, algures, deveras preces, referências sobre o tempo, lamúrias de vida e sofrimento declarado, escrito, riscado sobre a pedra, sobre a pele de quem viu, viveu e retratou todos aqueles gestos, quer de festa, quer de fervor, dor, abandono, dano, partida, ida enfim pelo terreno que só pertence a um tempo que ainda não vivemos.

 Cláudio de La Rocque Leal, Novembro de 1997