‘…é lindo, ainda que terrífico.’

Em arte, qualquer representação na realidade de algum objeto, sentimento, ou sensação, especialmente na arte fotográfica, onde o representar é exprimido em instante fugidio, quando a imagem configura-se de forma definitiva, ou pelo menos quase definitiva, uma vez que existe o trabalho no laboratório. A fotografia de Flavya Mutran, por exemplo, vence a barreira do ‘definitivo’, cria uma espécie de novo establishment quando transforma o que foi visto e flagrado em alguma coisa diversa do que realmente foi, é ou será. Em suma, a alegoria existe como retrato de algo interior/exterior, camuflado por uma idéia, romântica nos primeiros trabalhos da série Caixa de Pandora (1992/93), onde o desconhecimento é trocado, de maneira fascinante, pela descoberta do saber. 

Entendamos, então, que quando a fotografia camufla a imagem com uma espécie de veladura em cobre (que não cobre nem descobre inteiramente a imagem), negando-a na essência, está questionando o destino, a função de cada objeto fotografado. Assim se deu com o gato copiado da ponta de um filme – e a ponta de filme, numa espécie de resgate, vai incidir com mais freqüência e determinação na série dos Palimpsestos -, bem como a mulher que dança com um único olho a brilhar sobre a testa envolta em nuvens, e o menino adormecido, que dubla a morte, inclusive, como a própria fotografia observa, fechando um ciclo.

 Ainda, entende-se que a criação a série de fotografias para a primeira exposição CAIXA DE PANDORA, realizada em junho de 1993, importa em uma releitura do processo de iniciação na fotografia, que compreendeu sempre investidas em busca de uma nova linguagem, um novo establishment no processo fotográfico. Neste sentido, a degeneração que importou da primeira para a segunda Pandora (1995) quando a interferência se dá de outra maneira, com um líquido depositado sobre a imagem interferindo na visão desta e emprestando-lhe novo significado. O líquido encontra-se trancafiado no mesmo espaço, na mesma clausura da imagem.; a moldura, no caso, passa a ser a prisão , feito espaço. É com esta série, e com o movimento contínuo do líquido vermelho sobre a forma exposta de corpos femininos, que se percebe alguma investida da fotografia de Flavya Mutran no abstracionismo, traço e personalidade da grande maioria, senão a totalidade, dos artistas brasileiros.

Mas o fato de estar a expor este material de forma lúdica, onde os espectadores podem manipulá-lo, como se tivessem à mão um jogo de ilusionista – brincar de fazer correr o líquido vermelho (alegoria ou representação do sangue?) -, é refazer uma vez mais o sentido de sua própria produção. Pode-se entender, especificamente a segunda Pandora de Flavya Mutran, como um laboratório para o trabalho maior, encontrado na série dos Palimpsestos.  

 

mamae‘Mamãe’, slide da instalação ‘Imagines’ exposta na individual Palimpsestos, de Flavya Mutran em 1996. sobra_de_palavras1‘sobra de palavras…’ fotografia em P&B da série Palimpsestos de 1996. ©Flavya Mutran

Por isso, na imagem da boneca esquecida em uma vala, no menino adormecido que dubla um morto, ou no gato que beira o limite do real, ou seja, da película que congelou e definitivamente o aprisionou, sempre existe a visão maior, a amplitude. O que vemos não é somente aquilo que se encontra ali exposto, mas sim muito mais. O que se vê nesse processo de registro é a visão delimitada pelas máscaras, reverberando o objeto, amplificando a fala da artista, fazendo da fotografia o phatos do sentimento humano. É lindo, ainda que terrífico.

Então, volvendo-se para o início, quando as imagens foram encobertas pelas lâminas de cobre, na realidade, máscaras que impediam a visão do todo, ou davam a dimensão permitida, vê-se o quão esse processo foi, paulatinamente, delineando a sua pue, uma vez libertada, encontrou, em júbilo, o reconhecimento. Por isso esse desembocar de imagens contidas, com significado diversificado em, algures, deveras preces, referências sobre o tempo, lamúrias de vida e sofrimento declarado, escrito, riscado sobre a pedra, sobre a pele de quem viu, viveu e retratou todos aqueles gestos, quer de festa, quer de fervor, dor, abandono, dano, partida, ida enfim pelo terreno que só pertence a um tempo que ainda não vivemos.

 Cláudio de La Rocque Leal, Novembro de 1997

3 Respostas to “‘…é lindo, ainda que terrífico.’”

  1. vânia Leal Says:

    Flavya, o texto é denso mas ao mesmo tempo leve e essa dualidade assenta o compasso que o Cláudio descreve muito bem quando diz: “O que vemos não é o que se encontra ali exposto, mas muito mais.” fiquei refletindo diante das imagens e percebo que preciso ver muito mais teu trabalho que me apontam para outra chave de compreensão me dizendo que muito precisa ser descoberto pela lâmina do meu olhar. Mas como diz Bené Fonteles “Antes arte do que tarde”, o que me conforta porque quero muito teu trabalho e se tú concordar adoraria escrever sobre ele.
    Vânia Leal

  2. Pu que pariu!
    O Claudio faz falta pra caramba.
    Seu texto é um alocinógino da inteligência. Emocionante.
    — Supimpa!
    E parabéns pela brilhante série do terrífico! Aprisionado.
    Adorei.
    Bjs mana.
    Muitas saudades.

  3. muito legal garota, parabens e muita luz pra vc…………..
    bjsss

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