Eu e minhas cópias

Bioshots são fotografias digitais feitas da acumulação de várias imagens expostas em longas tomadas de exibição e captação, espécies de assemblages digitais que utilizam como matrizes diversos modelos de retratos fotográficos de épocas diferentes, para evidenciar as mudanças nos padrões de beleza e comportamento impostos a mulheres e homens pela sociedade industrial e pela cultura de massa ao longo do tempo.

A partir de retratos anônimos, inspirados nos PhotoBook de HighSchool[i] norte-americano, suas poses típicas de fotos para documentos, e álbuns comemorativos, constroem-se novas imagens com registros fotográficos do monitor do computador. Imagens que misturam penteados, roupas, e posturas datadas. Passado, presente e o devir (porque não?). Estes modelos-matrizes estão disponíveis aos montes em programas free commos na internet, e justamente por isso são imagens de baixíssima qualidade e nitidez para impressões de alta qualidade. São comumente usados apenas na web ou em dispositivos móveis como celulares, tendo como objetivo principal a interação e entretenimento de internautas em jogos, ou passatempos lúdicos para veiculação em álbuns do facebook, no visualizador do twitter – entre outros -, além do uso nas telas de proteção de micros e smartphones.

As imagens artificiais são quase como paródias, embora tratem de temas importantes. O programa em si é uma ferramenta que documenta a passagem do tempo no que comumente identifica um individuo, mas que não se fixa nos seus traços genéticos, e sim no seu estilo que se traduz na moda de roupas e acessórios, penteados e posturas. Cada elemento desta composição na imagem do homem contemporâneo é cuidadosamente tecido pela sociedade de consumo em formatos que, ao padronizar modelos em série, dá-lhes em troca a ilusão de fazê-los sentirem-se parte de algo maior, de um coletivo que ignora o biotipo de cada um, mas que o localiza e situa historicamente.

Acima, detalhe de duas imagens da série ‘Bioshots’ durante o Salão Arte Pará 2009. Belém/PA – Fotos: Alberto Bitar

Ao juntar modelos (ou matrizes) mais comuns, principalmente de fotos cujo estilo se popularizou nos últimos 20 ou 30 anos do Séc.XX, questiona-se o quanto o retrato de alguém é uma construção ficcional, ainda que histórica, norteada por padrões e códigos normativos de grupos sociais, que na maioria das vezes não levam em consideração o biotipo individual do retratado. Pode-se mudar a aparência, mas em suma, não o DNA que origina os traços fisionômicos das pessoas. A herança genética fruto da combinação ‘XX’ + ‘XY’ é imutável, e mesmo que possa ser alterada cirurgicamente ou com uso de tratamentos cosméticos, só altera a aparência externa, sem substituir a essência orgânica familiar. O apagamento parcial dos traços fisionômicos que identificam os personagens originais e a posterior inserção dos meus próprios traços faciais cria um ser híbrido, fantasmagórico, sem nome, sem rosto, sem história. Cabe ao observador definir o perfil e criar a história que quiser para essas cabeças sem rostos. Pode ser uma lembrança, ou um sinal do processo de esquecimento que apaga os traços de um ente querido, alguém distante perdido na invisibilidade da memória. Pode ser o espelhamento do seu próprio eu.

Apagar e inserir meus traços fisionômicos nesses modelos, misturá-los e refotografá-los em longos tempos de exposição, mais do que autorretratos produzidos num exercício de simulação, ficção e ao mesmo tempo de alteridade, produz uma série de obras construídas não apenas com imagem do meu próprio corpo, e sim com os testemunhos visuais de pessoas de várias origens, etnias e idades com as quais me identifico ou não me reconheço. De certa forma esta pesquisa não deixa de mostrar eu mesma, e minhas cópias.

[i] O programa online usado para a construção das matrizes da pesquisa é disponibilizado no site www.yearbookyourself.com

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