Novo Pretérito, agora em Belém/PA

A partir de uma relação intensa com a prática fotográfica, Flavya Mutran decidiu percorrer o caminho da pesquisa e ainda no começo das suas atividades como fotógrafa, a investigação em torno de novas possibilidades de produção da imagem já era uma premissa. Queria experimentar fotografar com inserção de novos elementos na foto, interferindo no resultado final da imagem. Na década de 90, isso era conhecido como “fotografia contaminada” e este era o tema pesquisado a fundo pelo grupo Caixa de Pandora, que ela criou ao lado de outros conhecidos artistas: Mariano Klautau Filho, Cláudia Leão e Orlando Maneschy.

Em sua mais recente exposição individual, “Pretérito Imperfeito de Territórios Móveis”, em cartaz no Espaço Cultural Banco da Amazônia até o dia 09/12, Flavya mostra justamente esse lado da curiosa pesquisadora, que busca sempre novos rumos para a arte. A mostra, que tem curadoria de Vânia Leal, é composta por imagens feitas depois muitas tentativas de compor esteticamente uma fotografia e a partir de fotografias de terceiros, em álbuns postados na internet. É porque Flavya busca no outro a compreensão do próprio trabalho artístico. “Meu interesse sem dúvida são as trocas, coisa que, aliás, sempre esteve presente na minha trajetória pessoal, pois sou ‘cria’ da Fotoativa, legítima descendente de quem nasce de uma relação apaixonada com a imagem”, diz. No próximo dia 17/11, a partir das 16h, fotógrafa e curadora participam de um bate-papo com o público.

Nas aproximadamente 60 obras, Flavya apresenta imagens como territórios, como se as fotos de internautas fossem lugares de fato, para descobrir a imagem do lugar e o lugar da imagem na nossa vida. E a Web 2.0 é território fértil para criações fotográficas. A exposição divide-se em duas linhas cujo enfoque se deu no uso interativo da fotografia com dispositivos online que abordam o rosto como território (séries BIOSHOT e EGOSHOT) e territórios como rostos/caras de pessoas e de lugares (THERE’S NO PLACE LIKE 127.0.0.1). “Tratar de fotografia (pretérito) é sempre tratar do espaço e do tempo (quase sempre tão imperfeitos), por isso fui buscar no território virtual um canal onde eu pudesse articular não só as mudanças da própria fotografia enquanto linguagem, como também as infinitas possibilidades simulatórias da imagem digital de hoje (flutuante por natureza)”, explica a autora.

Na série EGOSHOT, Flavya usa os daily vídeos – um tipo de animação feita com fotografias diárias do rosto, postadas no Youtube – para compor retratos em Preto & Branco de grande formato. Ao lado de cada obra, há o QR Code para que o visitante possa acessar o vídeo que deu origem à foto. Já na série BIOSHOT é a partir do dispositivo yearsbookyourself.com que ela cria retratos com o próprio rosto, encaixado à fisionomia de outros rostos. A série é composta de 52 autorretratos em espelhos que misturam sexos, raças e códigos visuais de 1950 aos anos 2000. Por fim, na série THERE’S NO PLACE LIKE 127.0.0.1, Flavya aborda o corpo como lugar, como o verdadeiro território da mobilidade. A frase ‘There’s no place like 127.0.0.1’ que nomeia as imagens desta série representa muito da postura do internauta e sua relação com o lugar.

Para esta última série, a autora apropriou-se de fotografias de álbuns digitais, como os do Facebook, por exemplo. A série é composta de fragmentos visuais desses ambientes das fotografias dos outros, para além dos monitores de computador, agora projetados em superfícies de espelhos, paredes, portas, escadas e páginas de livros. “São misturas de olhares diferentes que geram novas combinações de cores e composições, deslocamentos, superposições e apropriações”, explica. O que instiga a autora nas imagens disponíveis em álbuns de redes sociais é poder ver tempos e espaços misturados, expostos sem reservas. “Tudo se mistura ali, passado, presente e futuro em contínua atualização”, diz.

As fotografias começaram a ser produzidas para o mestrado na linha “Novas Tecnologias e Processos Tradicionais de Fotografia e Imagem”, desenvolvida entre 2009 e 2010 no Instituto de Artes da Universidade Federal do rio Grande do Sul (UFRGS), e a mesma pesquisa foi contemplada com o XI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, da Fundação Nacional da Arte (FUNARTE), na categoria “Pesquisa, Experimentação e Criação em Linguagem Fotográfica”. Com pesquisa acadêmica e artística, Flavya busca estabelecer um diálogo entre as autorrepresentações que circulam na web e as possibilidades de transposições de imagens do meio virtual para o físico. “Isso, na prática, significou misturar formatos e métodos fotográficos diferentes, relacionando vários tipos de arquivos digitais (JPEG, TIFF, GIF e RAW) com impressões em diversos suportes (matrizes fotográficas convencionais em película e/ou papel), criando assim um trabalho impregnado de temporalidades e processos híbridos”, diz. Essa inquietação é típica da autora, no processo de explorar as possibilidades plásticas da fotografia, sem limites.

Dominik Giusti – Assessoria de Comunicação

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