O ROSTO COMO TESTEMUNHA, por Vânia Leal

A Exposição “Pretérito Imperfeito de Territórios Móveis”, apresentada pelo Banco da Amazônia, é o resultado de uma experiência fascinante de Flavya Mutran no universo das redes sociais. O conjunto diversificado de imagens se desdobra em caminhos metafóricos, como um segredo a ser encontrado “nos rostos do eu, do outro e do lugar”.

Sabemos que apreender fotograficamente o rosto como um território movente no fluxo da interação social não é uma tarefa das mais fáceis, mas esse conjunto diversificado de imagens revela que o olhar para o espaço virtual mergulha numa espécie de labirinto, de inconstante fronteira, numa trama complexa de singularidades que se cruzam e se interpenetram o tempo todo.

O registro sobre a memória sempre foi uma constância na poética de Flavya, uma caminhante em busca de imagens intimistas e subjetivas do humano. É exatamente essa a impressão que temos destas três séries de fotografias – EGOSHOT, BIOSHOT e THERE´S NO PLACE LIKE 127.0.0.1 -, que fogem da abordagem documental para se transformar em fragmentos que anunciam um suposto passado incerto, um presente instável, um futuro partido, pulverizado.

A força dessa fragmentação e a convicção experimental desse trabalho apontam, na verdade, para a singularidade do olhar sobre rostos de expressões fortuitas, mundanas, que habitam espaços irreconhecíveis. A superposição de reflexos, os encontros e desencontros, o dentro e o fora, o íntimo e privado, as confusões visuais, as luzes estranhas, os detalhes banais e os índices tecnológicos criam espécies de vertigens. Testam o poder de sedução que a Fotografia exerce sobre nós, e a partir daí, oferece infinitas possibilidades de leituras sobre a questão do tempo e do espaço como uma nova plataforma para múltiplas inscrições.

A fotografia contemporânea de Flavya respeita a memória num desejo utópico de não perder a alma. Assim, seus habitantes podem apropriar-se de maneira prospectiva, para poder sonhar com um futuro desejável para o mundo virtual. As imagens de Flavya como arte, tornam isto possível!

Vânia Leal * – Curadora da Mostra Pretérito Imperfeito, em Belém/PA

* Macapá/AP, 1962. Mestre em Comunicação, Linguagem e Cultura pela Universidade da Amazônia, é docente e coordenadora do curso de Design Gráfico da Faculdade de Estudos Avançados do Pará – FEAPA. Coordena a Curadoria Educacional do Projeto Arte Pará, sendo responsável pela Editoração do catálogo anual do Salão e do encarte especial do Arte Pará, no jornal O Liberal. Atua na área da curadoria e pesquisa em Artes desde 2004, já tendo participado de júris de premiação e organização de salões como o UNIVERSIA ARTE, Salão Unama de Pequenos Formatos, da curadoria da individual de Odair Mindelo no Edital do Banco da Amazônia em 2010, e do mapeamento da região Norte no Projeto Rumos Itaú Cultural de Artes Visuais, Edição de 2011. Vive e trabalha em Belém/PA.

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