Olhares tão longe, tão pertos…

A mostra 100 menos 10, que abre na próxima segunda-feira, dia 13 de fevereiro de 2012 (Galeria Theodoro Braga, CENTUR, Belém/PA), reunirá trabalhos de Alan Soares, Alberto Bitar,  Drika Chagas, Elza Lima, Emídio Contente, Fatinha Silva, Flavya Mutran, Ionaldo Rodrigues, Luciana Magno, Michel Pinho, Miguel Chikaoka, Luiza Cavalcante, Pedro Cunha, Roberta Carvalho e Walda Marques, que produziram diferentes maneiras de (re)ver obras e realizadores da histórica semana de 1922, marco do Modernismo na Arte Brasileira.

Provocados pelo artista e curador Guy Veloso, as novas conexões, citações e interpretações que os 15 artistas – sendo 13 diretamente ligados à fotografia -, fizeram sobre o olhar futurista de artistas do passado, levanta questões sempre exploradas no campo da arte, relacionadas com o tempo, a identidade individual e a coletiva, Cultura popular e erudita, sistema das artes, meios e formas de apresentação. Pra mim foi dada a oportunidade de reler as obras de Tácido de Almeida e de Vicente do Rego Monteiro, um das letras outro da pintura, ambos pouco conhecidos por mim, mas ao mesmo tempo estranhamente familiares.

Acima, a obra ‘Mulher Sentada’ de Vicente do Rego Monteiro (s/ data), e à direita ‘myself’ foto de Flavya Mutran (2012) exposta na Mostra 100 menos 10.

As obras de Vicente do Rego Monteiro, de uma volumetria à flor da pele, me remeteram às dobraduras do papel, às camadas de tinta e às dobras do corpo que sugerem o (auto)toque, o aconchego da intimidade, do colo. Dessa vontade inexplicável e proibida que temos de tocar algumas obras de arte, de profaná-las com as mãos, é que ‘myself’’ surgiu, como se fosse possível simular digitalmente o que minhas digitais jamais poderão tocar….

Acima, ‘mata web’ ©Flavya Muntran, fotografia digital inspirada no poema SALVAR de Tácito de Almeida.

Já com Tácito de Almeida a relação foi com a palavra, com o espírito nômade que salta da sua poesia.  Começou com o Guy enviando por email o poema SALVAR, de Almeida, sugerindo alguma conexão com trabalhos de uma série de fotos que produzi em 2004. Li o poema e as frases ficaram na cabeça até surgir a imagem ‘mata web’. Fiz uma analogia entre o sentido dos ‘(…) longos passeios desoladores’  do poeta e minhas constantes viagens pelas ondas da web. Assim como ele eu também corro por florestas de luzes frias e assombradas por vultos desconhecidos que trafegam à deriva, em caminhos impossíveis de salvar. ‘Mais um desejo, amigo’, diria eu mesmo à Tácito não fosse os quase noventa anos que separam nossos desejos perdidos. Abaixo o poema na íntegra:

SALVAR

Mais um desejo, amigo!
É preciso soltar,
Pelas florestas frias e adormecidas,
Todos os nossos desejos tímidos,
Procurando mesmo assombrá-los,
Para que fujam, para que corram
E se desviem por todos os lados…

Mais um desejo!
É preciso que a pálida vida,
Nos seus longos passeios desoladores,
Encontre sempre um desejo perdido
Que ela saivá salvar…

( Editado na revista KLAXON – nº 6 – pág. 6 – em 15 de outubro de 1922 – São Paulo )

para saber mais acesse: www.100menos10.com.br

Acima, foto da montagem das obras na Galeria Theodoro Braga, em Belém/PA. Foto: Alberto Bitar

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