O lugar é o corpo, por Mariano Klautau Filho

Sempre em busca de objetos infotografáveis, Flavya Mutran está na constante experimentação de materiais que escapam à lógica da fotografia direta e sempre encontrando imagens que estão em queda, vindas talvez de um mundo mais solar das superfícies e horizontes rumo a um universo de sombras, lugar de dúvidas, lembranças, desejo. “Quase memória” (2000-04), “There´s no place like 127.0.0.1”(2009-10) e “Mapas de Rorschach”(2011) desenham esse percurso da luz à sombra.

Em “Quase memória”, temos um conjunto de paisagens aquáticas de acento pictorialista. São cromos de arquivo de família que perderam sua emulsão no desgaste do tempo e na enchente de uma cidade amazônica. A plasticidade ao acaso foi adotada no ato da apropriação e envolvida em processos de justaposição promovida pela artista. Estamos na superfície da paisagem, em horizonte ainda decifrável, mas de baixas luzes, memórias apagadas, resquícios de um território ainda possível.

Em “There´s no place like 127.0.0.1”, a descida a um estado de consciência mais vago e profundo atinge uma zona abissal povoada de retratos obscuros. Voltamos ao retrato e sua impossibilidade de dar conta das identidades definidas. Aqui ele está na freqüência sinistra de um mundo de anônimos que se entregam publicamente nas redes virtuais. Mutran apropria-se destes rostos e corpos em fotoblogs, os manipula digitalmente, projeta-os sobre outras superfícies e compõe uma série de imagens sedutoras.  Estes rostos são mapas sociais, “muro-branco, buraco-negro do rosto” nas expressões de Deleuze e Guattari cujas articulações teóricas inspiraram os conceitos pensados pela artista a partir da noção de Rostidade (Visagéité). O título faz referência direta ao número do IP, endereço de um computador, o lar dos atores que constroem o mundo virtual das identidades/imagens em constante movimento. O resultado é de alta potência erótica. Talvez seja a grande identidade anônima que abriga em certas medidas a carga sexual coletiva.

Diante de tantas errâncias cantadas e decantadas pela arte, pela cultura e pela tecnologia; diante de tantos conceitos sobre deslocamentos, perdas e hibridações e mais: diante de muitos vestígios e resgates nos quais a idéia de identidade encontra-se envolvida neste século XXI ainda assim o lugar é o corpo. Será sempre o corpo como experiência real do prazer e a constituição de imagens vividas e sonhadas.  Sofisticadas, escuras e magnéticas as imagens de “There´s no place like 127.0.0.1” nos atraem pelo que possuem de estranho e carnal.

E os “Mapas de Rorschach”? Manchas que tentam tirar da sombra alguns restos de desejo de um lugar, pessoa, cidade ou resquícios de um mundo definitivamente perdido?

Mariano Klautau Filho

abaixo, algumas imagens da montagem da exposição, (07 de março de 2012, fotos: Flavya Mutran)

Acima, Adriele Silva da Silva e Makikó Akao, da Kamara Kó Galeria fazendo os últimos ajustes nas legendas das obras. Abaixo, Marcos Moreira, responsável pela montagem. (Fotos: Flavya Mutran)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: